5/11/2018 15:19

Do cinema à realidade dos 8 a 0 no Corinthians: quem era Imparato, o Trem Blindado do Palestra

Retratado em "O Casamento de Romeu e Julieta", com a temática de Palmeiras x Corinthians, jogador fez três gols naquela partida, e não quatro, como brinca o filme

Foto: Arquivo

"Viu, Baraga. O Pelicciari fez três. O Gabardo fez um. E esse aqui, esse aqui fez quatro. – Eh, esse aí é o Imparato." O diálogo entre Marco Ricca (Romeu) e Luiz Gustavo (Alfredo Baragatti), protagonistas do filme "O Casamento de Romeu e Julieta", fez muita gente conhecer um jogador histórico e icônico do Palmeiras nos anos 1930: Luiz Gino Imparato.


A conversa entre sogro e genro na ficção tem sua dose de realidade. Corintiano, Romeu vê atônito o Palmeiras fazer 3 a 0 no Corinthians com apenas 15 minutos de jogo, em duelo pelo Brasileirão de 1999. O que está longe de ser real é a presença de Imparato no estádio naquela partida.

O Trem Blindado – apelido recebido por causa de sua força física – então é descoberto na ficcão por Romeu e apresentado a Baragatti, que sonha com uma nova goleada por 8 a 0, algo que o Palestra Itália impôs ao Timão em 1933, há exatos 85 anos, neste dia 5 de novembro.

Aquela foi a maior vitória do Palmeiras sobre o Corinthians na história do confronto. Imparato, destaque da tarde, ganhou o prêmio de melhor em campo: um rádio e mil contos de réis pelos três gols feitos e assistências.

Para relembrar os 85 anos daquela vitória do Palestra Itália, o GloboEsporte.com foi atrás da história de Luiz Imparato, seja ela real e registrada na história ou na fantasia mostrada no filme lançado em março de 2005, dirigido por Bruno Barreto e roteirizado por Mario Prata, Daniel Caruso e Jandira Martini.

O começo no interior

Conhecida por sua extensa colônia espanhola que deu origem ao Esporte Clube São Bento, a região de Sorocaba (a 90km de São Paulo) também tem alta presença de imigrantes italianos que vieram ao Brasil para trabalhar na Estrada de Ferro Sorocabana e nas tecelagens da região – Santo Antônio, Santa Maria e Votorantim (nome da empresa que acabou virando o da cidade emancipada de Sorocaba em 1963).

O que levou os Imparato à região foi a oferta de emprego. A família chegou ao Brasil de Nápoles no fim do século 19 e partiu para Votorantim já no início dos anos 1900. Foi aí que houve o primeiro contato com o futebol, jogado por funcionários da Votorantim. Ao todo, sete homens da família foram jogadores de futebol, todos eles criados no Savoia, o primeiro rival da história do Palestra Itália, em 1915.

– Como o Palestra queria jogar contra um time que tivesse descendentes de italianos e uma equipe forte, o time achou o Savoia, que tinha bons resultados jogando na região de Sorocaba. Essa é a importância. Naquela época, um time sair de São Paulo e ir para Votorantim de trem, e saber que ainda hoje existe a taça Savoia, você vê o peso daquele primeiro jogo. Era o confronto de jogadores italianos, das indústrias Matarazzo e Votorantim – explica o jornalista Gerson Júnior.

Alguns dos Imparatos fizeram sucesso também no Verdão, como Ernesto e Caetano. Mas Luiz Gino é o mais lembrado, não apenas pelos três gols na vitória por 8 a 0 no Corinthians, mas pelo seu poder de decisão, força física e quantidade de gols, como explica o historiador do futebol de Votorantim Jesse James dos Santos.

– [Gino] é o mais conhecido dos irmãos. O Caetano e o Ernesto jogaram na época em que a imprensa era mais modesta. E o Gino já era da época em que saía até foto nos jornais. Na época dos irmãos, não havia. Por esse jogo dos 8 a 0, ele se tornou mesmo um ídolo, um jogo emblemático. Dentro do Palestra, ele foi um dos jogadores da fase dele dos mais importantes. Mesmo fora de forma, ele entrava e acabava com o jogo. Então ele saía do padrão pela força física. Entrava com bola e tudo, tinha um chute forte. Foi um dos ícones – comenta o votorantinense que deu continuidade a um trabalho iniciado pelo pai.

Luiz Imparato foi campeão do Paulistão quatro vezes: 1932, 1933, 1934 e 1936. Segundo o próprio site do Palmeiras, foram 113 jogos pelo clube, com 58 gols anotados. Seu último jogo pelo Alviverde aconteceu em 1939.

A curiosidade fica por conta dos contratos da época. Como seu time de origem, o Savoia, e até o São Bento de Sorocaba eram amadores, o atacante poderia atuar por todas essas equipes. Imparato, então, pegava um trem e voltava ao interior para jogar a pedido de um dos irmãos que ficou morando em Votorantim, Ernesto.

– A família começou a ir embora de Votorantim, junto com o Gino. Mas o Ernesto acabou ficando na cidade, gostava muito do Savoia. E ele sempre chamava os irmãos para jogar no Savoia. Nessas, o Gino saía de São Paulo para jogar aqui. Nas folgas ele jogava aqui, não treinava, só jogava e defendia o Palestra – completa Jesse James.

Após parar de jogar, Gino Imparato permaneceu com a família em São Paulo. Retornou a Votorantim uma vez ser homenageado pelo Clube Atlético Votorantim, nome adotado pelo Savoia nos anos 1940, no Estado Novo de Getúlio Vargas, pela mesma razão do Palestra Itália ter virado Palmeiras. Gino morreu em 1976, em São Paulo, e deixou filhos e netos que hoje vivem na capital paulista. Apenas parentes de segundo grau da família do Trem Blindado moram ainda em Votorantim, o berço do futebol da família.

Por que Imparato foi parar no filme?

A essa altura da reportagem, você já deve ter percebido que a morte do verdadeiro Imparato e a aparição de Imparato no filme são separadas por mais de duas décadas. A temática do Verdão renderia uma gama de nomes que poderiam aparecer no estádio para Romeu durante aquela partida do Brasileirão de 1999, como Ademir da Guia, Levinha, Baldochi, Leão, César Maluco, Djalma Dias... Mas o escolhido foi Imparato.

– A figura do Imparato e da família, eles eram caricatos. O jeito de falar puxado para o italiano... Eles eram apaixonados pela Itália, pelo Palestra. Eu vejo que quando o roteirista pensou na figura emblemática no filme, teria trejeitos para ser interessante. Eles eram assim, falavam gesticulando como os italianos, mesmo. E naquele jogo, por ele ter feito os gols, por ser uma temática entre Corinthians e Palmeiras, foi bem na ferida do corintiano de encontrar o carrasco. Acho que nenhum corintiano queria encontrar seu carrasco no banheiro, ali do lado – brincou o historiador do interior.

A resposta para a recriação de Imparato nas telonas está na ponta dos dedos de Mário Prata, escritor mineiro e autor do livro "Palmeiras, Um Caso de Amor", obra que inspirou o roteiro do filme baseado no clássico de Shakespeare.

– Foi por acaso. Estava assistindo a um jogo entre Corinthians e Palmeiras escrevendo um roteiro deste conto e os locutores do jogo falaram da goleada de 8 a 0 de 1933, quando o Imparato fez vários gols. Em 15 minutos de jogo já estava 3 a 0 para o Palmeiras. Fiquei com a ideia na cabeça – comenta o escritor.

Após algumas discussões para descobrir quem faria a interpretação de Imparato, Prata ainda explica que o nome de Renato Consorte surgiu da ideia de Bruno Barreto, o diretor do filme. Sua veia cômica ainda ajudou na comédia romântica.

– Foi ideia do Bruno e já aprovamos – completa Prata.

Paulistano da gema, Renato Consorte teve uma longa história na dramaturgia, fez novelas nas TVs Tupi, Excelsior, Manchete, SBT e Globo, além de trabalhar por vários anos na TV Cultura e dar vida a Imparato. As cenas do ex-jogador no filme são poucas, como a apresentação no estádio e um jantar na casa de Baragatti. Consorte morreu em 2009, aos 85 anos, na capital paulista.

Fantasia ou realidade, Luiz Imparato foi um dos jogadores mais importantes da história do Palmeiras em seus primórdios, participando do único tricampeonato paulista do Verdão, e ainda divertiu muita gente que gosta de filmes. A família só aumentou o laço que o Palmeiras tem com a região de Sorocaba, palco do primeiro jogo da equipe em sua história, berço de jogadores como Oberdan Cattani e Luis Pereira.

Mas e os 8 a 0?

Palestra e Corinthians jogaram na tarde de 5 de novembro de 1933 pelo Campeonato Paulista. O duelo também valia pelo Torneio Rio-São Paulo. As equipes, na verdade, se equivaliam, mas os palestrinos estavam em boa fase, conquistando três estaduais em cinco anos.

Com a bola rolando, Pelicciari começou também seu show particular marcando aos 7, 30 e 40 minutos da etapa inicial. No começo do segundo tempo, Gabardo fez 4 a 0. Pellicciari fez o quinto, aos 7. E aí Imparato, que já havia servido o passe para dois gols, estufou a rede três vezes, aos 9, 35 e 40 minutos do segundo tempo para fechar o massacre alviverde.




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3189 visitas - Fonte: Gazeta Esportiva

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O palmeiras tem uma historia riquissima ... por isso os rivais nao respeitam os titulos antes 71 e ate o mundial de 51 foda se a FIFA futebol existia antes dela. Nos devemos sim valorizar esses herois e essas conquistas. SOMOS 9 VEZES CAMPEOES BRASILERO E O 1° campeao mundial de clubes da historia.

José Candido     

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