Gabriel Jesus e o Telefone

8/8/2016 19:15

Gabriel Jesus e o Telefone

Gabriel Jesus e o Telefone

"Assisti ao sub-18 na Rede Vida ontem. Queria ver o moleque lá, Gabriel Fernando, que todo mundo tá falando que é bom".



Li, sem testemunhar, com certa atenção a saga palmeirense na Rua Javari naquele estadual sub-18 que revelou Gabriel Fernando, vulgo Borel, logo convertido a Gabriel Jesus. Aí veio a Copinha e ele barbarizou na primeira fase, chorou na louca semifinal até, numa espécie de milagre, superar a fobia palmeirense por apoiar jovens e partir para o aquecimento numa noitinha de sábado contra o Bragantino. Já estreou consagrado pela torcida.



Aí exorciza o ASA de nossas vidas, senta o goleiro do Cruzeiro no chão, ganha a Copa do Brasil, é o melhor do time na VERGONHOSA participação na Libertadores, torneio em que sofre racismo no Uruguai e é expulso de bobeira na Argentina, e vira o principal jogador do Campeonato Brasileiro.



E tudo isso vira pó com um telefonema do Guardiola.



Um merda



Professor Clóvis de Barros, um dos filósofos contemporâneos mais premiados por estas bandas, tem uma tese discutível e incômoda a respeito do suicídio. Para ele, o autogolpe fatal é um tabu para aqueles que ficam, por incluir a sugestão de que não fomos capazes de dar uma só alegria ao falecido: ele preferiu morrer a dividir sua vida conosco.



Não é que eu concorde, e a filosofia nem tá aí para isso, mas, embora Gabriel Jesus esteja optando pela alegria e não pela renúncia, eu me sinto como o rapaz vivo da pensata acima.



Eu jurava que a gente era legal e que o tratava bem. Tinha certeza que ele gostava de estar aqui conosco, vivendo um tempo lindo da carreira. Engano meu. Ele está com pressa de partir. Falou isso para o clube e, com um distanciamento físico e representativo, usando a camisa da seleção, lá em Goiânia, fez a gente saber disso através da imprensa: "tá tudo certo", "o clube já sabe da minha vontade".



Na verdade, eu me sinto é um merda, mesmo. Um merda que finalmente sente por um jogador algo que ultrapassa o banal e rasga o comum, que enxerga no menino um personagem inédito, a maior das crias de linha da história, que se transformou em um afeto diferenciado e que, no entanto, não serviu para competir com um telefonema.



Aspirantes



O Menon, em seu blog, escreveu algo que concordo quando Renan, então da Lusa, foi ao Morumbi torcer pelo São Paulo. Diz ele que o pequeno também tem o direito à dignidade. Não são só os ricos que podem esperar gestos grandiosos. Postura não enxerga vulto: ou você tem, ou não tem. No meu mundo o atleta do São José pode negar o Guarani, e o do Guarani pode negar o Palmeiras, desde que tenham um bom motivo afetivo, não meramente profissional, para tal.



E nessa hierarquia que só obedece o lado econômico das coisas, o Brasil é um nanico perto da elite europeia e o Campeonato Brasileiro um mero torneio de aspirantes - sim, de aspirantes, isso aqui só serve para seus destaques aspirarem o de lá, e não é só uma questão técnica, é estética tambem, o hino da Champions, o HD pra 187 países, o bonequinho no video-game.



Mas nada disso me tira o direito de, sim, ter expectativas e, agora, decepção por Gabriel Jesus decidir de forma tão convicta e prematura sua mudança de clube, cidade, país. Não acho um absurdo, não. Só achava que ele era parte de uma história diferente em nossa vida. Que nada. É mais do mesmo - e o fato de ser a maior revelação do clube, tecnicamente, em trinta anos, não altera essa última frase, é mais do mesmo, jogou no Palmeiras como jogaria, e como jogará, em qualquer time.



Então é isso, voltemos à nossa programação normal, essa relação distante e previsível, impessoal, sem sal nem identificação, que jogador e torcida mantêm hoje em dia e que o menino Borel pareceu, por alguns momentos, capaz de subverter. Gabriel Jesus voltará da seleção como um atleta "emprestado" que não fez "uma loucura" por nós. Que não mandou o Guardiola esperar um pouquinho. Que preferiu ser tratado só como um ótimo jogador, que a gente apoia por interesse em seu futebol, não por um tipo de identificação rara que só se tem com os filhos do clube ou com os que incorporam e absorvem nossas guerras e demônios.



Se é assim que quer, é assim que será. Não espere lágrimas minhas quando você for embora, e saiba que, ao não bancar um tempo maior de sua vida no Palmeiras, é normal que a torcida não te banque da mesma forma nos momentos de baixa e de derrota. Futebol é assim mesmo, pelo menos nas casas daqueles que não recebem telefonemas sedutores.


12258 visitas - Fonte: ESPN FC

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ídolo é que ele não é! ...... aqui no Palmeiras não!

sei nao em...... acho q vai ser mais um Keirrison todos lembram né arrebentou no Palmeiras e tal nao pode ver um dinheirinho q vazou pra Europa e la nada fez e hoje ninguem nem sabe por onde anda. cuidado G. Jesus pra nao ser mais um. Vc poderia ter seguido o ex. Do Neymala ficado uns 2 ou 3 anos no verdão se valorizar mais ainda vc só ganhou um titulo pelo Palmeiras tinha muito mais para provar

muito blá blá blá... aff, se o menino quer ir, deixa ele ir e ver no que vai dar... vai com Seus Gabriel, valeu pelo tempo que ficou aqui no Palmeiras, mesmo pq no começo que não acreditou em você, foram os dirigentes...

convivio c o Neymar gera isso!

O Palmeiras é gigante....

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