- A Globo não é um gestor do futebol. É um parceiro comercial. A gente busca nesse diálogo e execução dos acordos com os clubes, logicamente, conhecer, compreender e apoiar em alguns assuntos, mas fundamentalmente é um tema melhor para ser respondido pelos clubes, porque lida diretamente com a gestão financeira deles. Acho que existem casos e casos. De maneira geral, tenho visto um esforço dos clubes em superar as dificuldades dessa gestão financeira das antecipações. Espero que levem êxito.
- O efeito de ter uma liga, uma mesa coletiva dos clubes, não dá pra antecipar o que seria. Na minha visão pessoal, o futebol brasileiro carece sim de maior diálogo entre os clubes. Existem clubes que têm dezenas de motivos para brigar, são rivais, disputam jogadores, disputam jogos, mas existe um motivo para uni-los, que é uma agenda institucional. Não me refiro apenas a direitos de televisão, mas agendas comum com poder público, segurança e, logicamente, aspectos comerciais para desenvolver o futebol como o calendário. A ausência desse senso de coletividade é um problema como um todo.
A Primeira Liga surgiu em meio a muita coisa que corria. Renovação de estadual, debate de calendário, a própria renovação da Série A. Minha leitura é que a Primeira Liga tem ou teve um ideal interessante, a criação de uma mesa coletiva para debater aspectos e soluções. Não tenho certeza se o objeto daquela discussão era de fato o que a gente precisa. Será que o Brasil precisa de novas competições ou temos mais do que deveríamos ter? Tantos conflitos de datas, tanta dificuldade para jogar tantas vezes. O que nós precisamos é uma melhor ocupação das datas existentes.
Qual é o argumento usado para a sua definição dos valores no pay-per-view? Existe um modelo para justificar os números na televisão aberta e fechada? O repasse do pay-per-view está dentro do que agrada aos clubes? Há clubes que não estão satisfeitos com os valores...
- Gostaria de enxergar como um processo de transformação. A mudança de 2019 para 2024 foi uma mudança promovida durante um processo de renovação muito trabalhoso e conturbado com a concorrência, que de forma legítima buscou e até parabenizo pela iniciativa de ter buscado se envolver com o futebol brasileiro e investir. Esse processo funcionou como unir o útil ao agradável. O útil com uma nova abordagem de contratação, mais baseada em equilíbrio, meritocracia esportiva e comercial, e por combater a concorrência do ponto de vista comercial e manter os direitos, com o agradável de promover dentro desse ambiente o debate sobre o modelo. Enxergo esse novo modelo como um grande avanço de preocupação com a distribuição de recursos, porque, na prática, você vai verificar que 2/3 dos recursos empregados pela Globo no futebol vão estar ligados a critério de igualdade, que são 40% da verba de televisão aberta e fechada, ou ligados a aspectos de meritocracia esportivo e comercial, sendo 30% dependente do número de vezes que o clube será exibido e nada relacionado à audiência, e 30% baseado no desempenho final do clube na competição. Tem muito esforço para usar essa mecânica para equilíbrio, já que 1/3 da quantia desse bolo, estimo, que será alocado para pay-per-view. É uma estimativa porque o pay-per-view, ao contrário das verbas de televisão aberta e fechada, não tem um valor fixo de referência. O que nós dividimos com os clubes é o percentual da receita dos sócios desse modelo, que é justo e ganhamos juntos. Esse novo modelo é um grande passo, um grande avanço e que, em tese, encaminha outros avanços e debates em parceria do grupo Globo com os clubes.
Como a Globo encarou, após tantos anos, o cenário no qual não terão os direitos de transmissão da Liga dos Campeões? Mesmo com a ascensão de Neymar, talvez o carro-chefe do marketing brasileiro, a Globo não terá esses direitos...
- Gestão de negócios ou nesse caso específico de aquisições de direitos, te força a fazer opções. Nos últimos dois anos e 11 meses, e falo pela minha atuação direta, o grupo passou por um processo de aquisição de Série B, Copa do Brasil e Seleção Brasileira, temos um encaminhamento sobre competições da América do Sul, além de promover a maior negociação e mais abrangente negociação da Série A já feita. Neste momento, já são 34 clubes aderentes ao novo modelo da Série A. E mais ampla em termos de números de temporadas cobertas. Pela primeira vez, foi feito um acordo sobre a Série A no Brasil cobrindo seis temporadas, de 2019 a 2024. Se o grupo que busca com a sua parceria em relação com o futebol gerar um produto, capaz o suficiente de desenvolver negócios de mídia com o futebol, faz uma eleição e uma escolha de seguir e abraçar o futebol brasileiro, é natural que você tenha uma opção para ser feita de não seguir com uma aquisição internacional. São opções. Foi uma opção de mercado e negócios feitos.
Em relação a outros campeonatos europeus, o que estamos vivendo no Brasil é um reflexo da transformação dessa indústria de mídia no Brasil, sofrendo efeitos de uma continuada recessão. Vejo o Italiano, por exemplo, sem uma distribuição televisiva regular. Ocorreu também com o Francês. E a própria Liga dos Campeões, que tem a maior parte dos seus jogos na Internet. É difícil você isolar causas e efeitos, mas no contexto, a decisão da Globo é ligada a uma avaliação de negócios e capacidade de investimentos dedicado ao futebol brasileiro, o que é uma postura louvável para um grupo brasileiro, impactado também pela situação econômica do país.
O modelo de gestão dos principais clubes europeus segue em linha distinta da adotada pelo futebol brasileiro. Enquanto na Europa, continente que reúne os 20 clubes mais ricos e com maior faturamento do mundo, a opção é pela transformação deles em empresa, no Brasil segue em voga o modelo associativo. Esse é fator determinante para essa distância de nível financeiro/técnico?
- Vejo, sim, uma diferença, mas acho impossível você isolar fatos ou causas para isso. Sobre o tema da natureza jurídica dos clubes, eu vejo com bons olhos. Faria bem para o futebol brasileiro ter - não de forma compulsória, mas a opção com clareza quanto aos benefícios e renúncias que os clubes de futebol podem fazer - mais clara a opção pela profissionalização da gestão dos clubes e do futebol. O futebol é uma indústria globalizada e, por isso, inevitavelmente os clubes brasileiros estão disputando com os clubes internacionais. Aspectos ligados a calendário, tamanho de mercado e a própria situação do país influenciam no quadro onde pode ter uma distância entre clubes de continentes diferentes.
A lei do ProFut tem avanços interessantes, mas nenhum clube ainda foi punido por não honrar seus compromissos fiscais. A solução pode estar numa fiscalização mais rígida?
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- Não tenho conhecimento técnico para identificar se é uma solução. O que provoca um acidente aéreo são vários erros não corrigidos e acumulados. O desenvolvimento de um negócio vem de vários acertos. Maior responsabilidade financeira de clubes, estabelecimento de uma pauta coletiva, focada na agenda comum de médio e longo prazo, um olhar mais crítico, de desenvolvimento de produtos, só aqui falamos três itens. Não estaríamos inventando nada, é assim que é feito (risos).
Como a Globo reage à entrada do Facebook no futebol? Foram dois campeonatos a nível internacional comprados em seguida...
- Havia uma expectativa. Recentemente, fizeram uns movimentos em outros mercados. Concorrência não é novidade, nem aqui e nem em qualquer outro lugar. Temos nossas alavancas e forças em termos de posição de negócios construído no Brasil, assim como eles, um player internacional, também terão. É positivo para o ambiente, mas esperamos seguir trabalhando e defendendo os interesses do grupo Globo.
Como estão as negociações com os clubes que fecharam com o Esporte Interativo?
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- São negociações continuadas. Esse fracionamento dos clubes deixa claro que os desafios são muito trabalhosos. O futebol brasileiro aprendeu com esse processo. A Globo já firmou 34 contratos para esse modelo 2019-2024. Dos clubes que venderam televisão fechada para terceiros, vários deles fecharam televisão aberta e pay-per-view com o Grupo Globo. Você citou Santos, Inter, Fortaleza, Ceará, Ponte Preta... Com alguns clubes, nós já compomos os acordos nas mídias que eles possuem disponibilidades. Há, sim, clubes sem contrato. Sigo engajado em mostrar as vantagens do novo modelo.
A Globo pode ficar sem transmitir alguns jogos?
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- Dentro do alinhamento jurídico do Brasil, o grupo precisa ter o direito dos dois clubes. O Grupo Globo tem um volume de jogos que tem contrato e a Turner tem direito a outro pacote de jogos. Note que como isso é por mídia, há partidas que podem ter exibição em televisão fechada pela Turner e televisão aberta pela Globo. Nós nunca passamos por essa situação na Série A, mas falta um tempo e algumas variáveis. Muitos clubes foram colaboradores na formação de ideias. O que me cabe fazer é continuar expondo benefícios e avanços. É impossível ver a distribuição de direitos de clubes que são coletivos sem termos que são padrões e comuns a todos. Tenho orgulho de dizer que o termo apresentado ao clube é coerente.
Cenário inusitado também é a atitude do Atlético-PR, por exemplo, que em algumas partidas não compartilhou as imagens dos gols e, em parceria com o Coritiba, transmitiu via YouTube e no Facebook os clássicos. A Globo teme que os clubes se tornem uma concorrência?
- É natural que o melhor e mais amplo acesso a tecnologias traz o impulso dos clubes produzirem o próprio conteúdo. Isso está acontecendo no Brasil e acontece fora também. A grande questão é, novamente: como você lida e relaciona esse ímpeto e vontade legítima de dispor do seu ativo para o modelo de negócio que, de fato, remunere e traga recursos? Esse equilíbrio vem da própria evolução do desenvolvimento de negócios. O grupo Globo tem tentado se posicionar como parceiro para ajudar o desenvolvimento de negócios dos clubes também nessa área. Os clubes (estão) ativando, com muita competência, essas transmissões, pré, pós e bastidores. Isso tudo gera mais demanda e interesse em acompanhar o jogo ao vivo na televisão. Na realidade, ao invés de conflitar, pode colaborar para reforçar o engajamento do torcedor com aquele clube ou competição.
Uma das coisas que o Esporte Interativo revolucionou no Brasil foi o uso do streaming. Desde coletivas até transmissões ao vivo foram usadas pelo canal. Qual a posição da Globo sobre o uso desse modelo?
- Não diria que tem uma revolução nisso. Sobre a iniciativa do Esporte Interativo na Série A, a concorrência faz muito bem e a existência dela criou um ambiente para uma discussão sobre qual a maneira mais adequada ou propensa para a aquisição de direitos com maior equilíbrio na distribuição de recursos. Gerou também um ambiente para, em vez de uma aquisição de curto prazo como a Globo tinha em mente, migrarmos para um modelo em que adquirimos até 2024.
Sobre o streaming, não vejo uma revolução de um player. Estamos passando pela evolução tecnológica. Da mesma forma que em algum momento teve uma oferta de esporte condicionado pelo o que representava apenas a televisão aberta, quando o cabo e televisão fechada surgem, você passa a ter capacidade de entregar conteúdo segmentados para diversos players. O streaming funciona da mesma forma. Se fizer um paralelo com a música, permite oferecer mais o tempo todo, mas no final das contas a exibição na Internet reflete a uma oferta de conteúdo gratuito que uma televisão aberta faz, ou uma oferta de conteúdo mediante a assinatura que uma televisão paga tradicional faz. Não tem uma revolução em termos de modelo de negócio. Temos uma evolução em termos de tecnologia em como podemos entregar esse tipo de conteúdo.
Em toda transformação, é muito importante que seja sustentável para o negócio. A forma como essa exploração é feita deve vir para somar, não destruir valor. Me preocupa capacidade de banda, geração de receita que esse segmento de distribuição de Internet pode gerar para quem paga conta, que são as entidades organizadoras e clubes. O grupo Globo possui o Premiere Play, onde pode acompanhar qualquer jogo desde que seja assinante. Da mesma forma, há a oferta digital de Globo ou SporTV. Não é o máximo que podemos fazer, mas temos que ter a certeza que vamos dar passos à frente, com mais receitas e exposição dos clubes.
Qual é o seu maior sonho de modificação no futebol brasileiro?
- Eu acho que é voltar a posicionar o futebol brasileiro como um produto de mídia, com grande satisfação e envolvimento entre os clubes. Tenho tido um diálogo com eles para conciliar o que buscamos e o que o futebol precisa. Vê-lo forte, com retenção de talentos, sem prejuízo para as outras competições... (Ver) o futebol brasileiro como pilar do nosso calendário. Só uma competição nacional, onde você coloca as marcas competindo entre si com regularidade, pode fortalecer o coletivo. Na hora que você condena a meritocracia e o equilíbrio em 2/3 do ano, é o primeiro terço que condiciona onde o clube vai chegar. Existe uma distância muito grande que não foi provocada por escolha aleatória. O tamanho é determinado pelo mercado de mídia que existe ali, e isso explica o tamanho da divisão de uma região para outra.
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