Da chegada como 'rockstar' à fila para despedida: os 78 dias no Palmeiras de Ricardo Gareca

6/7/2019 10:04

Da chegada como 'rockstar' à fila para despedida: os 78 dias no Palmeiras de Ricardo Gareca

Da chegada como 'rockstar' à fila para despedida: os 78 dias no Palmeiras de Ricardo Gareca

Na frieza dos números, o trabalho de Ricardo Gareca no Palmeiras, em 2014, é indefensável: 13 jogos, quatro vitórias, um empate e oito derrotas. Com 33%, teve o segundo pior aproveitamento de um técnico do clube no século - Marco Aurélio, em 2001, teve 30%, em dez jogos.



Por outro lado, o argentino que comanda o Peru no domingo (7), contra o Brasil, na final da Copa América, deixou saudade entre aqueles com quem trabalhou na Academia de Futebol.



Apresentado em 23 de maio, mas tendo começado efetivamente a trabalhar em 16 de junho, o treinador foi demitido em 1º de setembro de 2014 sob muita comoção interna.



"Os jogadores e os funcionários fizeram fila para se despedir dele", contou ao ESPN.com.br o ex-lateral Wendel, titular em todos os jogos do argentino no comando da equipe. "E ele também fez questão de falar com todos, o que não é comum. Tem muito técnico que nem se despede dos jogadores", afirma o ex-jogador.



O presidente Paulo Nobre, por exemplo, só o demitiu porque sentiu que não havia alternativa. O dirigente por muito tempo se ressentiu de ter dispensado o técnico, pois tinha certeza de que Gareca teria conseguido sucesso no clube em outras circunstâncias.



"Na minha visão de executivo, ele foi excelente. Mas, no futebol brasileiro, e diante da pressão que o time vivia à época, não houve como ele seguir", diz José Carlos Brunoro, então principal dirigente do futebol alviverde.



"Muito educado, sempre otimista, ele acreditava, até o fim, que o time iria se encontrar", conta Brunoro.



"Ele nos apoiava muito. Uma pena que tenha pegado uma fase tão ruim do clube", diz Wendel. "Todo mundo gostava dele".



Analisando-se sua passagem hoje, cinco anos depois, e já sabendo como a história terminou, parece claro que a chegada de um treinador com pouco conhecimento de futebol brasileiro a um clube sempre tenso como o Palmeiras, no ano de seu centenário, era um equívoco.



Mas a verdade é que, entre traços de drama e comédia, a passagem do técnico pelo Brasil deixou marcas inesquecíveis. E, por que não, saudade.



ROCKSTAR QUE NÃO GOSTA DE VERDE

Gareca competiu com o ex-lateral Chiqui Arce, ídolo palmeirense, pelo emprego no Palmeiras. Enquanto Brunoro conversava com o paraguaio, Omar Feitosa, hoje chefe da preparação físico, na época supervisor de futebol, contatava o argentino.



"O Arce, que é um profissional muito correto, demorou um pouco para dar retorno, porque estava sob contrato com o Cerro Porteño", relembra-se Brunoro.



Como havia pressa, o argentino ficou com a posição.



A chegada de Gareca ao desembarque do Terminal 1 do Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, em 21 de maio de 2014, foi digna de um rockstar - tanto pela maciça presença da imprensa quanto pela maneira como o técnico estava trajado.



Não bastassem os longos cabelos escorridos de El Tigre, seu apelido desde a época de jogador, o técnico desembarcou no país vestindo um paletó preto, camisa branca, óculos escuros e um lenço preto no pescoço.



Rod Stewart, Mick Jagger, Iggy Pop. Não faltaram comparações do técnico com grades estrelas da música pop.



Dois dias depois, ele seria apresentado no centro de treinamentos do Palmeiras. E já entre as primeiras perguntas, veio a indagação sobre a história de que ele considerava que a cor verde lhe dava azar.



"Não, isso não é verdade", negou ele, com um sorriso envergonhado.



Mas não era.



Em 2009, Zapata, capitão do Vélez Sarsfield, seu ex-clube, revelou que Gareca não deixava que os seus atletas usassem chuteiras verdes em nenhuma circunstância.



"Não podemos usar de jeito nenhum! Ricardo tem suas superstições e temos de respeitá-las, pois senão ele não fica tranquilo", explicou o atleta.



O fato é que, por todo tempo que trabalhou no clube, o treinador só vestiu a cor azul do fardamento da comissão técnica - quando vestiu. Aconteceu de ele conceder entrevistas com roupas "civis".



GRANDE DEMAIS

Acostumado a trabalhar em clubes menores, Gareca se assustou com o tamanho do Palmeiras - em todos os sentidos. O peso e a pressão da torcida também surpreenderam o técnico.



Além da estrutura muito maior do que a do médio Vélez, de onde ele viera, o técnico se assustava com o batalhão de jornalistas que comparecia a cada entrevista coletiva sua.



Tanto que, sempre que possível, ele tentava evitar concedê-las. Não entendia porque tinha de falar depois de cada partida, por exemplo.



"Vou falar quando achar que tenho de falar", costumava dizer. E, de fato, deixou de conceder algumas coletivas pós-jogo.



BATALHÃO DE HERMANOS E TEIMOSIA

Gareca teria a parada para a disputa da Copa do Mundo para preparar o Palmeiras. Mas mesmo antes de embarcar com a equipe para intertemporada, em Atibaia, já conversava com a diretoria sobre a necessidade de reforços.



Na primeira entrevista coletiva que concedeu, já cobrou o presidente Paulo Nobre por novos jogadores.



Aproveitando-se de seu conhecimento do mercado argentino, o técnico indicou um pacote com quatro compatriotas: Fernando Tobio (zagueiro), Agustín Allione (meia) e Jonathan Cristaldo (atacante), vinham do Veléz. Pablo Mouche, do Boca Juniors.



"Os argentinos se integraram rapidamente ao time", relembra-se Wendel. "A verdade é que aquele grupo era muito unido, apesar das dificuldades", relembra-se.



"Mas nem todos chegaram bem. Alguns demoraram um pouco mais para se adaptar", conta ele.



Wendel, elegante, não cita nenhum nome. Mas quem se lembra dos jogos do time na época tem na cabeça a imagem de um roliço centroavante Cristaldo, por exemplo.



Outra grande crítica ao trabalho do treinador estava na insistência dele em escalar o goleiro Fábio como titular, na vaga de um lesionado Fernando Prass.



O jovem arqueiro não deixava o time, mesmo tendo falhado em seis jogos do time pelo Brasileiro - ele chegou até mesmo a fazer um gol contra, diante do Sport, em Recife, além de falhar nos clássicos contra Santos, Corinthians e São Paulo.



'TENGO LÍMITES'

O melhor momento de Gareca no Palmeiras veio na conquista do torneio amistoso Euroamericano, em 30 de julho. Na disputa contra a Fiorentina, o clube alviverde levantou o troféu Julinho Botelho - craque muito importante na história dos dois clubes - no Pacaembu.



Foi um oásis de paz na dramática passagem dele pelo Alviverde, que começou com uma derrota por 2 a 0 para o Santos, na Vila Belmiro, em 17 de julho.



Ricardo Gareca começou a pressentir que seu chimichurri estava desandando após a derrota para o Sport, em 17 de agosto.



Naquele dia, ele falou pela primeira vez sobre "ter limites" sobre sua permanência no comando da equipe.



"Tenho experiências em situações assim e tenho meus limites. Por enquanto, não analiso (sair), mas tenho meus limites e seguramente a diretoria e a torcida também têm os seus", disse após o jogo - o décimo sem vencer, pior marca do clube na história da competição.



"A gente começou a perceber também que ele corria perigo, e não queríamos que ele caísse", conta Wendel. "Era ruim para todo mundo. A gente também ia ficar marcado com aquilo e o trabalho ia recomeçar outra vez, com outro técnico", diz.



O clube venceu na rodada seguinte, contra o Coritiba - única vitória dele no Brasileiro. As três demais foram as duas contra o Avaí, pela Copa do Brasil (2 a 0 e 1 a 0), e contra a Fiorentina.



Mas logo voltaria à sequência de derrotas - perdeu por 1 a 0 para o Atlético Mineiro, pela Copa do Brasil, e depois para o Internacional, no Pacaembu, novamente pelo Brasileiro, por 1 a 0.



A derrota para os gaúchos, em 30 de agosto, marcou a despedida dele do clube. Em 1º de setembro, o treinador esteve na Academia de Futebol apenas para se despedir dos jogadores.



Ao deixar o local de carro, fez questão de para para cumprimentar torcedores que estavam na porta do centro de treinamentos.



"Saio decepcionado comigo", disse.



"Foi uma decisão da diretoria e tenho que aceitar. Queria ficar no Palmeiras para tentar ir até o final e não estar nessa situação. Mas entendo a decisão que eles tomaram", disse Gareca, ao deixar o clube.



"Todos colaboraram conosco, infelizmente não pudemos dar os resultados. É duro para nós, mas essa é a realidade do futebol. A torcida foi incrível, teve muita paciência. E agradeço a vocês da imprensa também, pelo respeito que tiveram comigo", acrescentou.



Nos bastidores, quando foi se despedir do presidente Paulo Nobre, que estava visivelmente chateado pela dispensa, ainda disse ao mandatário.



"Vocês tiveram comigo uma paciência que eu não esperava. Não acho que outro clube teria demorado tanto para me demitir", disse.



HOMEM CERTO NA HORA ERRADA

Tido no Peru como o homem que mudou a história do futebol do País, ao classificar o time para uma Copa do Mundo depois de três décadas e o levar a uma final de campeonato depois de quatro, Gareca também deixou saudade na torcida palmeirense.



Para muitos alviverdes, ele foi o homem certo na hora errada.



Uma busca rápida me redes sociais mostra que mesmo entre os palmeirenses há aqueles que ainda o admiram - e que vão torcer por ele contra o Brasil de Tite, muito associado ao seu passado corintiano.



"Com esse time que o Palmeiras tem hoje, tenho certeza que ele teria sucesso", diz Wendel.



"Era um Palmeiras com uma situação financeira muito complicada e que precisava de resultados imediatos", completa José Carlos Brunoro.



Já no Peru, ninguém questiona o treinador.



"Estive lá há pouco tempo. Se ele se candidatar a presidente, certamente é eleito", brinca Brunoro.



Imagine, então, se ele conseguir o título da Copa América.


3102 visitas - Fonte: ESPN

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