Abel Ferreira não tem qualquer obrigação de se aproximar de jornalistas, desde que, é claro, o clube para o qual trabalha esteja de acordo. Marcelo Bielsa mantém distância durante toda a sua carreira; Pep Guardiola agiu da mesma forma por um longo tempo, até, já na Inglaterra, passar a selecionar com quem conversava. De modo que quando diz “vocês não me conhecem, e nem quero que me conheçam”, o técnico do Palmeiras não está exatamente sendo um pioneiro, e nem deve ser criticado por apenas conceder entrevistas coletivas, um direito dele. Uma curiosidade se apresenta, no entanto, quando, na sequência, Abel reclama que “se vocês quisessem me conhecer, perguntariam às pessoas que trabalham comigo”. Além de uma evidente contradição – quem não deseja ser conhecido não aponta um caminho para que isso aconteça -, Abel permite que a opinião pública questione se, de fato, ele prefere se manter distante. Esse tipo de declaração frequentemente revela uma verdade interna que significa o contrário do que foi dito, algo natural do ponto de vista humano. Em maior ou menor medida, todos queremos ser objeto de alguma dose de admiração.
Abel é um constante crítico dos defeitos do futebol no Brasil, papel pelo qual deve ser elogiado. No início, chegou a ser ridicularizado publicamente por um ex-presidente da CBF – afastado por assédio – por reclamar do calendário vigente, como se o fato de trabalhar no país o convertesse num cúmplice de nossos problemas. Os gramados, a programação de jogos, as arbitragens, a imprensa... Abel fala sobre tudo e, mesmo quando não tem razão, porque ninguém tem razão sempre, o debate oferece a oportunidade de avançarmos em áreas que nos distanciam dos lugares onde o jogo é tratado com mais profissionalismo.
O problema é quando posturas ou declarações sugerem um aparente desprezo pelo ambiente do futebol brasileiro, como se a comissão técnica que Abel chefia fosse uma bolha de virtudes inalcançáveis. Esse ambiente problemático – diversas vezes mencionado com tom de suspeição por intermédio de frases do tipo “sabemos como as coisas funcionam aqui” – é o mesmo ambiente em que foram criadas as condições para que Abel e seus auxiliares fossem incrivelmente bem remunerados para conduzir o Palmeiras, um clube cuja história está repleta de glórias, a um período único em termos de conquistas.
Não, as críticas não vêm apenas de quem “não gosta do Palmeiras”. Há poucos dias, Abel foi ofendido e escorraçado do gramado do Allianz Parque num inacreditável exercício de desrespeito e ingratidão oferecido por torcedores do próprio clube. Uma cena triste e inédita que mostra como o futebol está contaminado pelas piores sensações.
Ainda assim, o Palmeiras segue representando a chance real de ser campeão todos os anos numa região futebolisticamente relevante, algo que Abel, por mais ofertas que receba, ainda não vislumbra em outro lugar. O que está evidente no período recente é a tentativa de controlar a mensagem. Para isso, porém, ser um excelente treinador não basta.
A informação de um acordo para trabalhar no Qatar após a temporada de 2023 era pública há tempos, mas Abel preferiu tratá-la como mais uma inverdade para atacar sua imagem. Nesse domingo (17), com o conhecimento do acerto entre Palmeiras e Al-Sadd para encerrar o caso, foi forçado a reconhecê-lo . Não há nada de errado, registre-se, em mudar de ideia e dar meia-volta em uma decisão, mas talvez o próprio Abel e Leila Pereira, certamente, possam explicar por que Dudu recebeu um tratamento tão diferente.
Quanto ao futuro e a permanência no Palmeiras, o que Abel declarou no domingo sobre ser uma decisão familiar é compatível com o que ele diz a quem o conhece, ou até mesmo a quem encontra casualmente. O tempo que passou longe de sua mulher e filhas lhe causou um sofrimento que ele não quer viver de novo.

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