O Racing, O Segredo De Seus Olhos e... o Palmeiras
Assisti esses dias a um filmaço. “O Segredo De Seus Olhos” (El Secreto de sus Ojos) é uma produção argentina/espanhola de 2009 que venceu o Oscar de melhor filme estrangeiro, com merecimento. Trata-se de um filme policial com uma historinha romântica paralela, e o futebol tem papel fundamental no desenvolvimento da trama. Na cena mais impressionante do filme, uma sequência de quase cinco minutos sem cortes aparentes começa sobrevoando o estádio do Huracán e segue com uma frenética perseguição nas arquibancadas. Se você gostou da premissa e ainda não assistiu ao filme, pare por aqui, veja e volte depois, porque a partir deste ponto vai rolar spoiler; caso contrário, siga a leitura que logo, logo chegaremos ao Palmeiras.
O filme se passa em 1999, quando o Benjamin Esposito, um perito da polícia aposentado resolve escrever um livro baseado num caso que viveu em 1974, mostrado em flashbacks: uma jovem esposa é estuprada e assassinada; o suspeito, foragido, deixou escritas cartas com referências a nomes estranhos e sem sentido; o viúvo, apaixonado e inconformado, não descansa enquanto não for feita justiça – e não quer ver o assassino morto, pois, para ele, morrer seria um prêmio; queria vê-lo apodrecer na cadeia. Essa devoção sensibiliza Esposito, que passa a se dedicar também a achar o autor do crime.
O assassino é um protegido do regime peronista, e a investigação tem que ser feita de forma clandestina por Esposito e Sandoval, seu parceiro. Ele finalmente é capturado quando um tabelião racinguista, parça de boteco de Sandoval, identifica os nomes das cartas como sendo antigos atletas do Racing – e assim deduzem que o sujeito é um fanático incorrigível pelo time de Avellaneda. A cena da dedução e antológica (começa em 2:44).
Sandoval: – Tabelião, o que é o Racing para você?
Tabelião: – É uma paixão.
Sandoval: – Mesmo sem serem campeões há nove anos?
Tabelião: – Uma paixão é uma paixão!
Sandoval: – Está vendo, Benjamin? Um sujeito pode mudar de tudo. De rosto, de casa, de família, de noiva, de religião, de deus. Mas há uma coisa que não se pode mudar, Benjamin: não se pode mudar a PAIXÃO.
Tocaias são feitas em jogos do Racing até que, no estádio do Huracán, finalmente o suspeito é preso e confessa o crime. A ditadura peronista, no entanto, puxou suas cordinhas e algum tempo depois o bandido foi solto e alocado no serviço de segurança pessoal da presidente – foi quando o viúvo, numa transmissão de TV, o vê ladeando Isabelita Perón. Revoltado, ele cobra Esposito, que lhe havia prometido prisão perpétua. De mãos atadas, eles percebem que são mais fracos que o sistema e resignam-se.
De volta a 1999, em busca de uma conversa, motivado pelo livro que está escrevendo, Esposito procura pelo viúvo, que decidiu morar num sítio no interior. Depois de uma conversa não muito amistosa, ele se afasta, mas desconfiado, se espreita e descobre que o viúvo fez justiça com as próprias mãos: capturou o assassino da esposa e o manteve em cárcere privado por mais de 20 anos, sem dirigir-lhe a palavra sequer uma vez. Ele se aproxima e ouve a explicação: “Você me prometeu que ele pegaria perpétua”. O prisioneiro, de forma desesperada, se dirige a Esposito e implora: “peça para ele falar comigo, ao menos uma vez!”
Aí fiquei pensando: era melhor mesmo que seu captor não resolvesse começar a conversar, porque em 1999, se o pobre fanático torcedor do Racing quisesse saber ao menos quanto tinha sido o jogo de seu time, correria o sério risco de ouvir: “PALMEIRAS 7 x 0 RACING, PELOTUDO!”
O Racing guarda alguns paralelos interessantes com o Palmeiras. É um dos maiores times da Argentina em conquistas e torcida; viveu um longo tempo de seca de títulos que tornou sua torcida ainda mais leal e numerosa, e é conhecido por "La Academia", apelido que remonta à década de 1910 e que inspirou os jornalistas brasileiros que, tamanha a beleza do futebol jogado pelo Palmeiras na década de 60, adaptaram o epíteto.
Em 1999, no entanto, o Racing atravessava a pior fase de sua existência, que culminou com a declaração de falência. O clube foi salvo pela torcida; a internet é pródiga em histórias sobre esse capítulo da história racinguista. Daria outro filme para ganhar Oscar. A fantástica hinchada, no entanto, amargou esse chocolate para o Verdão, em partida válida pela Copa Mercosul. Mais um episódio que explica o enorme respeito que o Palmeiras tem em qualquer país da América do Sul.
Postado por
Karin Mott
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19899 visitas - Fonte: ESPN FC
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