Kevin estava em Dnipro, na Ucrânia, com o Shakhtar Donetsk, quando ouviu no hotel as sirenes que ficariam marcadas na memória. Assustado, dormiu no bunker com os companheiros de time para no dia seguinte viver, pela primeira vez, um jogo com quatro horas de duração, interrompido três vezes por alertas de ataque aéreo durante a guerra com a Rússia. – Pensava em muita coisa, nem conseguia dormir. Foi o único lugar que tive um pouco mais de medo. Os ucranianos se acostumaram. A gente, estrangeiro, ficava em choque – conta Kevin, um ano após deixar o Palmeiras, em entrevista exclusiva ao ge.
Toda vez que toca a sirene tem que parar o jogo e a gente vai para o bunker. Dava fome, era muito tempo sem comer, então comia macarrão com frango durante o jogo, no vestiário, e água. Só água – recorda. O ambiente assustou os pais de Kevin no início, mas o atacante, determinado a fazer carreira na Europa, aos poucos se habituou. Passou a conviver com as sirenes com mais naturalidade e não se arrepende da mudança. Longe disso.
Hoje está tudo muito de boa, não aconteceu nada desde que cheguei. Às vezes tem um ou outro alarme, mas nada demais. Aos 22 anos, e de passagem no Brasil, ele compartilha com o ge o inusitado na Ucrânia, a emoção com gol na Champions, os grupos de WhatsApp com ex-companheiros de Palmeiras e o sonho de futuro na Seleção.
Kevin se transferiu ao Shakhtar Donetsk em janeiro do ano passado e conta que, quando chegou a proposta, o negócio se resolveu em dias. Conversou com a diretoria, com o técnico Abel Ferreira e, com pouco tempo, não se despediu de quase ninguém. Na Ucrânia, deparou-se com o "calor" de 10º C e temperaturas abaixo de zero no inverno. Chega a pegar -20º C. Para jogar é calça térmica, luva, tapa a boca. O frio deixa o corpo mais preso, às vezes fazer uma jogada diferente pode dar lesão. Quando vi a neve caindo no rosto, no começo chega a ser bonito. Depois você só quer que acabe logo, o sol de volta. — conta Kevin aos risos.
O clima, não à toa, foi o primeiro impacto. Logo em seguida, a alimentação. Ele até se arrisca a provar pratos típicos, mas na dúvida é macarrão na concentração e churrascaria brasileira na rua. – Tem uma sopa, Borsch, que é boa, mas a comida é muito diferente. No café da manhã tem feijão. Almoço tem um enrolado de peixe cru com salada por dentro. Tentei comer um dia e não deu muito certo. Fica meio doido, não dá não. Apesar das mudanças, Kevin não custou a se adaptar.
Em meio ao clube conhecido como casa de brasileiros na Ucrânia, estreou em fevereiro de 2024, emendou sequências como titular e fez contra o Bayern, em dezembro, o primeiro gol em Champions League. Guardado com carinho, ainda que em uma derrota por 5 a 1. – Não sabia o que fazer e só deixei o pessoal me abraçar. Um jogo tão grande, nenhum jogador tem algo programa, então quando acontece dá um branco na mente. Meus pais choraram muito, dois chorões. Falo que foi um sonho não só meu, mas dele e do meu irmão. Com a família em São Paulo, Kevin os reencontrou quando voltou ao Brasil, em março deste ano, durante a Data Fifa. Esteve no vestiário do Palmeiras e até assistiu a final do Paulista contra o Corinthians no Allianz Parque. – Deu saudade de entrar em campo e correr por eles. Aqui no Brasil, a torcida costuma ser mais fanática, cantar o tempo todo. Lá é muito bonito, lotam o estádio, mas não cantam tanto, assistem mais ao jogo – conta o atacante.
Dos tempos de Palmeiras , guardou o carinho pela torcida, o interesse no que acontece no clube e um grupo de WhatsApp formado por jogadores da base desta mesma geração. Entre eles, Endrick, Estêvão, Garcia, Vanderlan, Giovani, Pedro Lima, Yan. Quando faz gol, aparece todo mundo do nada, depois morre de novo. Eu sou curioso, pergunto o que está acontecendo. — confessa aos risos. A saudade, porém, não passa disso. Aos 22 anos, descarta o retorno ao Brasil e traça convicto os próximos passos. – O próximo objetivo é Seleção e me vejo em um campeonato grande, como a Premier League. Já tive procuras do futebol inglês, mas por ser minha primeira passagem pela Europa, comecei mais por baixo para dar um passo maior na minha carreira. Me sinto em casa. Se for para sair, é para continuar na Europa.
com certeza Kevin logo em breve você vai estar uma liga mais forte e jogando bem e despontar na Europa e consequentemente na Seleção Brasileira